domingo, 8 de junho de 2025

As páginas que me prenderam

 


AS PÁGINAS QUE ME PRENDERAM


Nem as orelhas dos livros na estante me seduziam. Eles estavam todos ali, empilhados como guardiões silenciosos de histórias que eu ainda não conhecia, mas que simplesmente não me chamavam.

Eu andava como um fantasma, sem destino. Olhei o sofá onde me encolhi durante as últimas páginas ainda carregava o contorno do meu corpo e, talvez, os últimos vestígios das emoções que aquela história me deixou. Era como se o mundo real tivesse perdido um pouco da sua cor, e a única coisa que eu queria era voltar.

Voltar para aquele universo onde as palavras tinham cheiro de saudade, onde os personagens eram tão reais quanto as pessoas ao meu redor — ou até mais.

O título ainda brilhava na capa dura, como se zombasse de mim. Como se dissesse: “Tenta.” Mas eu não podia. Não ainda. Cada tentativa de abrir um novo livro era como trair aquele universo. Minhas mãos hesitavam, meu coração recuava, e minha mente voltava para a última frase do último capítulo.

Foi aí que tudo começou a ficar estranho.

Levantei. Caminhei devagar.

O livro.

Aberto na página exata onde terminava. Mas eu juro que o havia deixado fechado, com um marcador. As cortinas balançavam como se alguém tivesse passado por ali. E no ar, havia um cheiro... de papel velho e tinta fresca. Como se o livro estivesse sendo escrito ali, bem diante dos meus olhos.

— Você não terminou comigo, — sussurrou uma voz. Ou talvez tenha sido minha imaginação. Ou a tal da ressaca literária, que agora parecia ter ganhado forma.

Sentei no sofá com o exemplar sobre o colo. O título gravado em dourado parecia mais intenso, quase pulsante.

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